Liturgia diária
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quinta-feira, 2 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Queridos irmãos e irmãs, gostaria de iniciar hoje a refletir convosco sobre o Credo, isso é, sobre a solene profissão de fé que acompanha a nossa vida de crentes. O Credo começa assim: "Eu creio em Deus". É uma afirmação fundamental aparentemente simples na sua essencialidade, mas que abre ao infinito mundo do relacionamento com o Senhor e com o seu mistério. Crer em Deus implica adesão a Ele, acolhimento da sua Palavra e obediência alegre à sua revelação. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, " a fé é um ato pessoal: é a livre resposta do homem à iniciativa de Deus que se revela" (n. 166). Poder dizer acreditar em Deus é também um dom - Deus se revela, vem ao nosso encontro - e um empenho, é graça divina e responsabilidade humana, em uma experiência de diálogo com Deus que, por amor, "fala aos homens como aos amigos" (Dei Verbum, 2), fala a nós a fim de que, na fé e com a fé, possamos entrar em comunhão com Ele.
Onde podemos escutar Deus e a sua Palavra? Fundamental é a Sagrada Escritura, na qual a Palavra de Deus se faz escutável para nós e alimenta a nossa vida de "amigos" de Deus. Toda a Bíblia narra o revelar-se de Deus à humanidade; toda a Bíblia fala de fé e nos ensina a fé narrando uma história na qual Deus leva adiante o seu projeto de redenção e se faz próximo a nós homens, através de tantas luminosas figuras de pessoas que acreditam Nele e Nele confiam, até a plenitude da revelação no Senhor Jesus.
Muito belo, a este respeito, é o capítulo 11 da Carta aos Hebreus, que escutamos há pouco. Aqui se fala da fé e se colocam à luz grandes figuras bíblicas que a viveram, transformando-se modelo para todos os crentes. Diz o texto no primeiro versículo: "A fé é fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê" (11, 1). Os olhos da fé são, portanto, capazes de ver o invisível e o coração do crente pode esperar além de toda a esperança, propriamente como Abraão, do qual Paulo diz na Carta aos Romanos que “acreditou, esperando contra toda a esperança” (4,18).
E é propriamente sobre Abraão que gostaria de concentrar-me e concentrar a nossa atenção, porque é ele a primeira grande figura de referência para falar de fé em Deus: Abraão o grande patriarca, modelo exemplar, pai de todos os crentes (cfr Rm 4, 11-12). A Carta aos Hebreus o apresenta assim: "Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber em herança. E partiu não sabendo para onde ia. Foi pela fé que ele habitou na terra prometida, como em terra estrangeira, habitando aí em tendas com Isaac e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. Por que tinha a esperança fixa na cidade assentada sobre os fundamentos (eternos), cujo arquiteto e construtor é Deus” (11,8-10).
O autor da Carta aos Hebreus faz também referência ao chamado de Abraão, narrado no Livro de Gênesis, o primeiro livro da Bíblia. O que pede Deus a este patriarca? Pede-lhe para partir abandonando a própria terra para ir para o país que lhe mostraria, "Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar" (Gen 12, 1). Como respondemos nós a um convite similar? Trata-se, na verdade, de uma partida à escuridão, sem saber onde Deus o conduzirá; é um caminho que pede uma obediência e uma confiança radical, ao qual só a fé concede o acesso. Mas a escuridão do desconhecido – onde Abraão deve ir – é iluminada pela luz de uma promessa; Deus acrescenta ao comando uma palavra tranquilizante que abre diante de Abraão um futuro de vida em plenitude: “farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome...e todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gen 12, 2.3).
A benção, na Sagrada Escritura está ligada primeiramente ao dom da vida que vem de Deus e se manifesta antes de tudo na fecundidade, em uma vida que se multiplica, passando de geração em geração. E à benção está ligada também a experiência da posse de uma terra, de um lugar estável no qual viver e crescer em liberdade e segurança, temendo a Deus e construindo uma sociedade de homens fiéis à Aliança, “reino de sacerdotes e nação santa” (cfr Es 19, 6).
Por isso Abraão, no projeto divino, está destinado a transformar-se “pai de uma multidão de povos” (Gen 17, 5; cfr Rm 4, 17-18) e a entrar em uma nova terra onde habitar. Porém, Sara, sua esposa, é estéril, não pode ter filhos; e o país para o qual Deus o conduz é distante da sua terra de origem, já está habitado por outras populações, e não lhe pertencerá mais verdadeiramente. O narrador bíblico o enfatiza, com muita discrição: quando Abraão chega ao lugar da promessa de Deus: “os cananeus estavam então naquela terra” (Gen 12, 6). A terra que Deus doa a Abraão não lhe pertence, ele é um estrangeiro e como tal permanecerá para sempre, com tudo aquilo que isto comporta: não ter ambição de propriedade, sentir sempre a própria pobreza, ver tudo como presente. Esta é também a condição espiritual de quem aceita seguir o Senhor, de quem decide partir acolhendo o seu chamado, sob o sinal de sua invisível mas poderosa benção. E Abraão, “pai dos crentes”, aceita este chamado, na fé. Escreve São Paulo na Carta aos Romanos: “Ele acreditou, esperando contra toda a esperança e assim e se tornou pai de muitas nações, segundo o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência. Ele não vacilou na fé, embora reconhecendo o seu próprio corpo sem vigor – pois tinha quase cem anos – e o seio de Sara igualmente amortecido. Ante a promessa de Deus, não vacilou, não desconfiou, mas conservou-se forte na fé deu glória a Deus. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4, 18-21).
A fé conduz Abraão a percorrer um caminho paradoxal. Ele será bendito, mas sem os sinais visíveis da benção: recebe a promessa de formar grande povo, mas com uma vida marcada pela esterilidade de sua esposa Sara; é conduzido em uma nova pátria, mas deverá viver como estrangeiro; e a única posse de terra que lhe será concedida será aquela de um pedaço de terreno para enterrar Sara (cfr Gen 23, 1-20). Abraão é bendito porque, na fé, sabe discernir a benção divina indo além das aparências, confiando na presença de Deus também quando os seus caminhos lhe parecem misteriosos.
O que significa isto para nós? Quando afirmamos: “Eu creio em Deus”, dizemos como Abraão: “Confio em ti, confio-me a ti, Senhor”, mas não como a Qualquer um a quem recorrer somente nos momentos de dificuldade ou a quem dedicar qualquer momento do dia ou da semana. Dizer “Eu creio em Deus” significa fundar sobre Ele a minha vida, deixar que a sua Palavra a oriente a cada dia, nas escolhas concretas, sem medo de perder algo de mim mesmo. Quando, no Rito do Batismo, por três vezes pergunto: “Crês?” em Deus, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, a santa Igreja Católica e as outras verdades de fé, a tríplice resposta é no singular: “Creio”, porque é a minha existência pessoal que deve receber um avanço com o dom da fé, é a minha existência que deve mudar, converter-se. Cada vez que participamos de um Batismo devemos perguntar-nos como vivemos cotidianamente o grande dom da fé.
Abraão, o crente, ensina-nos a fé; e, como estrangeiro na terra, nos indica a verdadeira pátria. A fé nos torna peregrinos na terra, inseridos no mundo e na história, mas em caminho para a pátria celeste. Crer em Deus nos torna, portanto, portadores de valores que frequentemente não coincidem com a moda e a opinião do momento, pede-nos para adotar critérios e assumir comportamentos que não pertencem ao modo comum de pensar. O cristão não deve ter temor de ir “contra a corrente” para viver a própria fé, resistindo a tentação da “uniformidade”. Em tantas de nossas sociedades Deus se tornou o “grande ausente” e no seu lugar estão muitos ídolos, diversos ídolos e sobretudo a posse e o “eu” autônomo. E também os significativos e positivos progressos da ciência e da técnica têm levado o homem à ilusão de onipotência e de auto-suficiência, e um crescente egocentrismo criou não poucos desequilíbrios dentro dos relacionamentos interpessoais e dos comportamentos sociais.
No entanto, a sede de Deus (cfr Sal 63, 2) não foi extinta e a mensagem evangélica continua a ecoar através das palavras e obras de tantos homens e mulheres de fé. Abraão, o pai dos crentes, continua a ser pai de muitos filhos que aceitam caminhar sob seus passos e se colocam em caminho, em obediência à vocação divina, confiando na presença benevolente do Senhor e acolhendo a sua benção para fazer-se benção para todos. É o mundo abençoado da fé ao qual todos somos chamados, para caminhar sem medo seguindo o Senhor Jesus Cristo. E é um caminho às vezes difícil, que conhece também o julgamento e a morte, mas que abre a vida, em uma transformação radical da realidade que somente os olhos da fé são capazes de ver e desfrutar em plenitude.
Afirmar “Eu creio em Deus” leva-nos, então, a partir, a sair continuamente de nós mesmos, como Abraão, para levar na realidade cotidiana na qual vivemos a certeza que nos vem da fé: a certeza, isso é, da presença de Deus na história, também hoje; uma presença que leva vida e salvação, e nos abre a um futuro com Ele para uma plenitude de vida que não conhecerá nunca o pôr do sol.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Qual a fonte da autoridade de um governante: Deus ou o povo que o elegeu?
Mais que uma homilia aqui trata-se de uma formação sobre qual a visão da igreja para a Política. Lembre-se: "Somos guardiões do depósito da Fé"
Por Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfida e Auxiliar da Arquidiocese de Aracaju-SE
Bispo Titular de Acúfida e Auxiliar da Arquidiocese de Aracaju-SE
Homilia de Dom Henrique em ocasião da posse do Governador do Sergipe, Dr. Marcelo Déda, realizada no dia 31 de dezembro de 2010.
Exmo. Revmo. Sr. Dom José Palmeira Lessa, mui digno Arcebispo Metropolitano,
Exmos. Revmos. Senhores Dom Mário Rino Sivierei, Bispo diocesano de Propriá e Dom Marco Eugênio Galrão Leite, Bispo diocesano de Estância,
Revmos. Sacerdotes,
Exmo. Senhor Governador, Dr. Marcelo Déda Chagas e digníssimos familiares,
Exmo. Senhor Vice-Governador, Dr. Jackson Barreto de Lima e prezados familiares,
Exmas Autoridades dos três Poderes em âmbito federal, estadual e municipal,
Senhoras, Senhores, Irmãos em Cristo Jesus,
Exmos. Revmos. Senhores Dom Mário Rino Sivierei, Bispo diocesano de Propriá e Dom Marco Eugênio Galrão Leite, Bispo diocesano de Estância,
Revmos. Sacerdotes,
Exmo. Senhor Governador, Dr. Marcelo Déda Chagas e digníssimos familiares,
Exmo. Senhor Vice-Governador, Dr. Jackson Barreto de Lima e prezados familiares,
Exmas Autoridades dos três Poderes em âmbito federal, estadual e municipal,
Senhoras, Senhores, Irmãos em Cristo Jesus,
Aqui estão Vossa Excelência, Senhor Governador, e toda a sua ilustre Equipe de Governo, para colocar debaixo da proteção de Deus nosso Pai e do sinal da bendita cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo o exercício do seu Mandato executivo, conferido pelo Povo sergipano na eleição do outubro último. Assim procedendo, Vossa Excelência, seu Vice-Governador e seus colaboradores mais próximos, reconhecem o senhorio providente e amoroso de Deus sobre todas as coisas, sobre nossa vida e os acontecimentos da história. Efetivamente, falando do Cristo Jesus como Lógos eterno (isto é, Pensamento eterno e Palavra eterna) do Pai, o Evangelho que acabamos de ouvir proclama: “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada se fez de tudo que foi feito” (Jo 1,3). Eis uma certeza dos cristãos numa época de tantas incertezas e tateamentos: tudo quanto existe é fruto do Pensamento amoroso do Pai, e este Pensamento-Palavra de Deus é Aquele que celebramos por estes dias como nascido pobre, entrado na história dos homens em Belém da Judeia. Assim, que no universo e na história humana, na história de cada um de nós, há uma lógica, um providente, amoroso e misterioso desígnio de Deus, que se coloca em fecundo e respeitoso diálogo com a liberdade humana! Cremos que fruto dessa misteriosa Providência é também o estarmos aqui reunidos para esta Eucaristia de ação de graças e súplica.
Senhor Governador, pelo que sei de Vossa Excelência, dois motivos fundamentais o trazem aqui hoje. Não saberia dizer qual primeiro e qual segundo. Talvez ambos simultâneos, ambos intrinsecamente conjugados no seu ânimo e na sua convicção. De fato, penso que neste hoje, Vossa Excelência entra nesta Casa de Deus, Catedral Metropolitana dos sergipanos, para homenagear o Povo que o elegeu, crente em sua quase totalidade e católico em sua grande maioria. E com satisfação a Igreja, e certamente todos os crentes sergipanos, louvam a sua atitude. Efetivamente, não é digno governante aquele que não sabe prezar e cultivar os valores caros ao seu povo, valores que são importantíssimo fator de coesão social, inspiração de futuro a construir e concórdia entre os cidadãos. E a fé é valor e realidade caríssima aos sergipanos! Mas, bem sei de um segundo motivo que até este Templo traz Vossa Excelência e seus colaboradores – motivo não secundário nem menos importante que o primeiro. Ei-lo: a sua fé pessoal em Cristo Nosso Senhor. Vossa Excelência é cristão católico, professa a existência de Deus e sua entrada na história humana em Jesus Cristo, que por sua santíssima encarnação, morte e ressurreição nos salvou, abrindo a toda a humanidade um novo sentido para a existência seja pessoal seja social, dando à história dos homens um sabor de eternidade.
E, no entanto, cara Excelência, caros amigos e irmãos no Senhor, não deveriam passar despercebidas duas assertivas que emolduram os atos de posse deste novo Governo sergipano e que, numa visão superficial poderiam parecer contraditórias e inconciliáveis. Com efeito, a Escritura Sagrada, Palavra eterna do nosso Deus, afirma peremptoriamente: “Não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13,1). Doutra parte, a Carta Magna da Pátria brasileira afirma com força e solidez pétrea no seu artigo primeiro: “Todo o poder emana do povo...” Teríamos aqui uma contradição, uma aporia de penosas conseqüências na vida do nosso Povo? Teriam as autoridades da República de escolher entre a honra que se deve a Deus e o respeito e a conta que se devem ter para com o Povo? Afinal, qual a fonte da autoridade de um governante: Deus ou o povo que o elegeu?
A fé cristã nos ensina que Deus de tal modo é infinito, de tal modo onipotente, de tal modo onipresente e soberano, que não somente age para além de sua criação, mas está presente no mais íntimo de cada coisa e no interior mesmo da liberdade humana. Aliás, a maior manifestação do poder criativo e soberano do Senhor Altíssimo não está em chamar do nada à existência galáxias e nebulosas, mas em criar, em suscitar liberdades, seres capazes de pensar, de escolher, de dizer sim e dizer não, até mesmo dizer não ao Criador, na trágica aventura do pecado. Sem sufocar a humana consciência, sem humilhar em nada a sua liberdade, a divina providência a suscita, fá-la mais madura e dá-lhe consistência, de modo que podemos afirmar com a melhor tradição cristã que quanto mais Deus esteja presente, mais o homem é humano, mais o homem é livre, mais o homem exerce de modo consistente, reto e criativo a sua liberdade. Já dizia Santo Irineu, no distante século II: “A glória de Deus é o homem vivo!” Era totalmente equivocada a percepção da relação entre Deus e a liberdade humana do francês Maurice Merleau Ponty, ao afirmar que a consciência moral morre ao contato com o Absoluto. Não, senhores! Não há uma relação proporcionalmente inversa entre a ação de Deus e a liberdade, a dignidade e o agir humanos! Mais perspicaz - dramaticamente lúcido e perspicaz - foi o ateu peregrino de Deus, o basco espanhol Miguel de Unamuno, que assim exclamava ao Deus no qual não acreditava, mas que sinceramente procurava durante toda a sua vida: “Sofro eu por tua causa, Deus não existente, pois se tu fosses realidade, eu também existiria de verdade”. Eis, portanto, um mistério que jamais poderemos penetrar totalmente: os acontecimentos da história humana e da história de cada um de nós são fruto do misterioso encontro entre a providência ativa e respeitosa de Deus e a liberdade humana, por ele criada e sustentada de modo verdadeiramente consistente. Assim sendo, Senhor Governador, Excelentíssimas Autoridades, Irmãos e Irmãs, cremos que também nas escolhas de um povo a providência divina age e no resultado de uma eleição a vontade de Deus pode misteriosamente manifestar-se. Deste modo, a ação de graças ao Altíssimo pela sua eleição, a súplica que ora fazemos ao Eterno por um mandato abençoado, o reconhecimento que do Onipotente vem toda a autoridade no céu e na terra e, contemporaneamente, a afirmação convicta do preceito constitucional da soberania popular como fonte do poder dos governantes, em nada se contradizem, quando compreendidas cada uma na sua justa perspectiva.
É, portanto, justíssimo que Vossa Excelência e seu Vice-Governador, eleitos pelo Povo sergipano, rendam graças ao Deus que os escolheu e supliquem hoje a sua bênção e sua graça no exercício do poder que receberam. É a graça de Deus, caríssimos Senhores, que nos sustenta, que nos dá o querer e o realizar, que nos faz iniciar, perseverar e levar a bom termo tudo quanto de positivo realizamos! Sem o Senhor, sem seu Espírito em nós, o que poderíamos fazer de bom, de nobre, de justo, de perene? Diz o Salmista: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas” (Sl 126/127,1). Poderíamos mesmo afirmar, de modo ousado, que somente pelos frutos de um governo sabemos se ele vem ou não do Alto, do Onipotente. Efetivamente, para a tradição cristã, nem todo poder é exercido segundo Deus e com a autoridade de Deus. Por isso mesmo, no luminoso século XIII, São Tomás de Aquino já defendia a legitimidade de se derrubar um tirano que ao seu povo trouxesse violência, opressão e desventura. Eis, portanto: há um poder que não vem de Deus, há um poder satânico, diabólico: aquele que não exprime a providência benigna do Senhor, que é vida e bênção para a humanidade e para a criação. Um poder exprime a autoridade vinda de Deus pela vontade do povo que a delegou a um mandatário, quando se coloca convictamente a serviço da vida humana, da sua dignidade do momento da concepção ao seu término natural, quando se faz artífice da justiça social e do respeito pelo criado, quando vela pela conservação e dignidade da família, quando se coloca decididamente em defesa dos débeis e hipossuficientes da sociedade, quando se esforça sinceramente para manter-se probo gerente e guardião do bem público, quando homenageia de modo convicto a consciência da pessoa humana, defende a liberdade religiosa e de expressão, trabalha pela paz e a fraternidade entre os povos. Eis o poder que vem de Deus, eis a autoridade que dignifica um povo, eis o desiderato dos sergipanos ao elegerem Vossas Excelências! Que grande responsabilidade, que belo desafio, que glorioso labor, que possibilidade de bem, Deus e o Povo sergipano - Deus pelo Povo sergipano - colocaram-lhes nas mãos e nos ombros, Senhor Governador, Senhor Vice-Governador!
Estejam certos, Excelências, que cumprindo o preceito do Apóstolo de rezar pelos governantes, a Igreja elevará sua oração por suas pessoas e pelo bom êxito no exercício do mandato que o Povo lhes conferiu. De tal modo sonhe, planeje e proceda este Governo que ora se inicia, que exprima e transpareça a benevolência de Deus e honre o Povo que lhe conferiu tal poder, graças à providência do Altíssimo! Que o Supremo Mandatário dos sergipanos tenha sempre diante de si a solene exortação da Escritura: “Amai a justiça, vós que governais a terra; tende para com o Senhor sentimentos retos, e procurai-o na simplicidade do coração, porque ele é encontrado pelos que não o tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança” (Sb 1,1-2).
Senhor Governador, Senhor Vice-Governador, Autoridades deste Governo que nestes dias toma posse, sobre vossas excelentíssimas pessoas, sobre vossos subalternos, sobre vossos familiares e quantos lhe são caros, invoco, em nome do Senhor Arcebispo e no meu próprio, as melhores bênçãos divinas com as palavras da Escritura Sagrada que no Primeiro do Ano a Mãe Igreja nos fará ouvir: “O Senhor vos abençoe e vos guarde! O Senhor faça brilhar sobre vós a sua Face, e se compadeça de vós! O Senhor volte para vós o seu rosto e vos dê a paz!’ (Nm 6,24-26). Felicidades, caros Senhores! Deus os proteja e os conduza e lhes conceda um dia a recompensa dos servos bons e fieis! Amém.
Senhor Governador, pelo que sei de Vossa Excelência, dois motivos fundamentais o trazem aqui hoje. Não saberia dizer qual primeiro e qual segundo. Talvez ambos simultâneos, ambos intrinsecamente conjugados no seu ânimo e na sua convicção. De fato, penso que neste hoje, Vossa Excelência entra nesta Casa de Deus, Catedral Metropolitana dos sergipanos, para homenagear o Povo que o elegeu, crente em sua quase totalidade e católico em sua grande maioria. E com satisfação a Igreja, e certamente todos os crentes sergipanos, louvam a sua atitude. Efetivamente, não é digno governante aquele que não sabe prezar e cultivar os valores caros ao seu povo, valores que são importantíssimo fator de coesão social, inspiração de futuro a construir e concórdia entre os cidadãos. E a fé é valor e realidade caríssima aos sergipanos! Mas, bem sei de um segundo motivo que até este Templo traz Vossa Excelência e seus colaboradores – motivo não secundário nem menos importante que o primeiro. Ei-lo: a sua fé pessoal em Cristo Nosso Senhor. Vossa Excelência é cristão católico, professa a existência de Deus e sua entrada na história humana em Jesus Cristo, que por sua santíssima encarnação, morte e ressurreição nos salvou, abrindo a toda a humanidade um novo sentido para a existência seja pessoal seja social, dando à história dos homens um sabor de eternidade.
E, no entanto, cara Excelência, caros amigos e irmãos no Senhor, não deveriam passar despercebidas duas assertivas que emolduram os atos de posse deste novo Governo sergipano e que, numa visão superficial poderiam parecer contraditórias e inconciliáveis. Com efeito, a Escritura Sagrada, Palavra eterna do nosso Deus, afirma peremptoriamente: “Não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus” (Rm 13,1). Doutra parte, a Carta Magna da Pátria brasileira afirma com força e solidez pétrea no seu artigo primeiro: “Todo o poder emana do povo...” Teríamos aqui uma contradição, uma aporia de penosas conseqüências na vida do nosso Povo? Teriam as autoridades da República de escolher entre a honra que se deve a Deus e o respeito e a conta que se devem ter para com o Povo? Afinal, qual a fonte da autoridade de um governante: Deus ou o povo que o elegeu?
A fé cristã nos ensina que Deus de tal modo é infinito, de tal modo onipotente, de tal modo onipresente e soberano, que não somente age para além de sua criação, mas está presente no mais íntimo de cada coisa e no interior mesmo da liberdade humana. Aliás, a maior manifestação do poder criativo e soberano do Senhor Altíssimo não está em chamar do nada à existência galáxias e nebulosas, mas em criar, em suscitar liberdades, seres capazes de pensar, de escolher, de dizer sim e dizer não, até mesmo dizer não ao Criador, na trágica aventura do pecado. Sem sufocar a humana consciência, sem humilhar em nada a sua liberdade, a divina providência a suscita, fá-la mais madura e dá-lhe consistência, de modo que podemos afirmar com a melhor tradição cristã que quanto mais Deus esteja presente, mais o homem é humano, mais o homem é livre, mais o homem exerce de modo consistente, reto e criativo a sua liberdade. Já dizia Santo Irineu, no distante século II: “A glória de Deus é o homem vivo!” Era totalmente equivocada a percepção da relação entre Deus e a liberdade humana do francês Maurice Merleau Ponty, ao afirmar que a consciência moral morre ao contato com o Absoluto. Não, senhores! Não há uma relação proporcionalmente inversa entre a ação de Deus e a liberdade, a dignidade e o agir humanos! Mais perspicaz - dramaticamente lúcido e perspicaz - foi o ateu peregrino de Deus, o basco espanhol Miguel de Unamuno, que assim exclamava ao Deus no qual não acreditava, mas que sinceramente procurava durante toda a sua vida: “Sofro eu por tua causa, Deus não existente, pois se tu fosses realidade, eu também existiria de verdade”. Eis, portanto, um mistério que jamais poderemos penetrar totalmente: os acontecimentos da história humana e da história de cada um de nós são fruto do misterioso encontro entre a providência ativa e respeitosa de Deus e a liberdade humana, por ele criada e sustentada de modo verdadeiramente consistente. Assim sendo, Senhor Governador, Excelentíssimas Autoridades, Irmãos e Irmãs, cremos que também nas escolhas de um povo a providência divina age e no resultado de uma eleição a vontade de Deus pode misteriosamente manifestar-se. Deste modo, a ação de graças ao Altíssimo pela sua eleição, a súplica que ora fazemos ao Eterno por um mandato abençoado, o reconhecimento que do Onipotente vem toda a autoridade no céu e na terra e, contemporaneamente, a afirmação convicta do preceito constitucional da soberania popular como fonte do poder dos governantes, em nada se contradizem, quando compreendidas cada uma na sua justa perspectiva.
É, portanto, justíssimo que Vossa Excelência e seu Vice-Governador, eleitos pelo Povo sergipano, rendam graças ao Deus que os escolheu e supliquem hoje a sua bênção e sua graça no exercício do poder que receberam. É a graça de Deus, caríssimos Senhores, que nos sustenta, que nos dá o querer e o realizar, que nos faz iniciar, perseverar e levar a bom termo tudo quanto de positivo realizamos! Sem o Senhor, sem seu Espírito em nós, o que poderíamos fazer de bom, de nobre, de justo, de perene? Diz o Salmista: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas” (Sl 126/127,1). Poderíamos mesmo afirmar, de modo ousado, que somente pelos frutos de um governo sabemos se ele vem ou não do Alto, do Onipotente. Efetivamente, para a tradição cristã, nem todo poder é exercido segundo Deus e com a autoridade de Deus. Por isso mesmo, no luminoso século XIII, São Tomás de Aquino já defendia a legitimidade de se derrubar um tirano que ao seu povo trouxesse violência, opressão e desventura. Eis, portanto: há um poder que não vem de Deus, há um poder satânico, diabólico: aquele que não exprime a providência benigna do Senhor, que é vida e bênção para a humanidade e para a criação. Um poder exprime a autoridade vinda de Deus pela vontade do povo que a delegou a um mandatário, quando se coloca convictamente a serviço da vida humana, da sua dignidade do momento da concepção ao seu término natural, quando se faz artífice da justiça social e do respeito pelo criado, quando vela pela conservação e dignidade da família, quando se coloca decididamente em defesa dos débeis e hipossuficientes da sociedade, quando se esforça sinceramente para manter-se probo gerente e guardião do bem público, quando homenageia de modo convicto a consciência da pessoa humana, defende a liberdade religiosa e de expressão, trabalha pela paz e a fraternidade entre os povos. Eis o poder que vem de Deus, eis a autoridade que dignifica um povo, eis o desiderato dos sergipanos ao elegerem Vossas Excelências! Que grande responsabilidade, que belo desafio, que glorioso labor, que possibilidade de bem, Deus e o Povo sergipano - Deus pelo Povo sergipano - colocaram-lhes nas mãos e nos ombros, Senhor Governador, Senhor Vice-Governador!
Estejam certos, Excelências, que cumprindo o preceito do Apóstolo de rezar pelos governantes, a Igreja elevará sua oração por suas pessoas e pelo bom êxito no exercício do mandato que o Povo lhes conferiu. De tal modo sonhe, planeje e proceda este Governo que ora se inicia, que exprima e transpareça a benevolência de Deus e honre o Povo que lhe conferiu tal poder, graças à providência do Altíssimo! Que o Supremo Mandatário dos sergipanos tenha sempre diante de si a solene exortação da Escritura: “Amai a justiça, vós que governais a terra; tende para com o Senhor sentimentos retos, e procurai-o na simplicidade do coração, porque ele é encontrado pelos que não o tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança” (Sb 1,1-2).
Senhor Governador, Senhor Vice-Governador, Autoridades deste Governo que nestes dias toma posse, sobre vossas excelentíssimas pessoas, sobre vossos subalternos, sobre vossos familiares e quantos lhe são caros, invoco, em nome do Senhor Arcebispo e no meu próprio, as melhores bênçãos divinas com as palavras da Escritura Sagrada que no Primeiro do Ano a Mãe Igreja nos fará ouvir: “O Senhor vos abençoe e vos guarde! O Senhor faça brilhar sobre vós a sua Face, e se compadeça de vós! O Senhor volte para vós o seu rosto e vos dê a paz!’ (Nm 6,24-26). Felicidades, caros Senhores! Deus os proteja e os conduza e lhes conceda um dia a recompensa dos servos bons e fieis! Amém.
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